Vale ressaltar que essa análise entrega toda a história do filme.
Aproveito para destacar mais uma
elipse criativa da montagem.
Em meio à conversa com Arvind,
este adverte Jamal sobre o perigo que corre. A câmera, inesperadamente,
enquadra o funcionário jogando a fumaça pela rua. A relação então é criada
entre a fumaça e Maman. Ao final da cena, Jamal corre pelo túnel passando pela
fumaça. E a elipse é feita mantendo a fumaça na próxima cena dos dois irmãos
procurando por Latika. Desta maneira somo avisados que eles estão adentrando o
território de Maman (elemento fumaça).
Toda a sequência até encontrarem
a menina é permeada de elementos amarelos - dá iluminação aos objetos. À
primeira vista contraditório, já que a cena retrata um ambiente marginal e
promiscuo, perceberemos que independente da experiência negativa vivida por
Jamal, ela será positiva, sob seu ponto de vista apaixonado, sempre que
auxiliar na busca por Latika. Nada mais natural que o local onde a encontrara,
depois de tantos anos, seja tomado de amarelo.
Então Salim tem sua derrocada,
ultrapassando definitivamente a linha entre o bem e o mal. Não há mais
justificativas para amenizar suas atitudes. Não só matara um homem como traíra
o irmão dormindo com Latika.
Perceba como Jamal mal reconhece
o irmão (reflexo com a cabeça cortada ao fundo (1)), surpreendendo-se com sua
atitude drástica. Como o revólver invade o plano de Latika ilustrando a
violência com que Salim a dominará (2), já que ela ainda se sente presa a Maman
(reflexos entrelaçados (3)). E, principalmente, como a visão (plano subjetivo) de
Salim está encoberto pela sua forma distorcida de entender a vida (4).
Salim resolve vender seus
serviços à Javed, um poderoso criminoso da região inimigo de Maman.
O menino é surpreendido por Javed
que entra no segundo plano demonstrando sempre está atento e um passo a frente
dos inimigos. A iluminação, que esconde um lado de sua face, e o cartaz ao fundo, criam as sensações de
desequilíbrio e periculosidade de Javed. Contudo o quadro pesa para a direita,
posição de Salim, salientando, não só o assassinato do criminoso (ponto futuro),
mas também a força irresponsável com que o menino lida com a situação
ameaçadora.
Posteriormente Salim forçará
Latika a deitar-se com ele. Jamal incrédulo permanece estupefato em frente à
porta. A câmera avança agressivamente pelas costas de Jamal ilustrando o estado
emocional do menino e a traição sofrida. E a falta de registro do ato que
ocorre dentro do quarto. Jamal nem se quer tentou imaginar o que estava
acontecendo, diferentemente da morte da mãe.
Progressivamente o inspetor rende-se
a sinceridade de Jamal. Algo que fica constatado simplesmente pela movimentação
do ator no plano fixo. Primeiramente ele se senta próximo do menino,
demonstrando maior cumplicidade. Vemos ao fundo a televisão (signo do Jamal
fraudulento). No momento em que ele abre a guarda a Jamal, perguntando porque
ele admitiria um assassinato, projeta-se para frente escondendo a televisão. Significando
que ele não o encara mais como a celebridade que trapaceou no programa da TV.
Jamal acerta a pergunta de 1
Milhão de Rúpias e Prum lhe entrega o cheque. O rapaz passara de miserável à
milionário, mas isto traz consequências (será preso). A montagem nos mostra que
Jamal ascendeu socialmente (elevador subindo), mas terá de adaptar-se a
clausura que é viver com esse status.
Status já alcançado por Salim a
custa de sangue (à espera do irmão na parte de cima do prédio).
Os dois se encontram. Salim
enriqueceu por conta do seu trabalho com Javed, resumindo-se à um homem sem
caráter, sem objetivos, sem família ou sem raízes. O plano subjetivo de Jamal vê
o vazio em que seu irmão transformara-se: um homem sem espiritualidade.
Entretanto, ao longo dos anos
afastados de Jamal, Salim passou a cultivar um arrependimento sincero por ter
tomado-lhe Latika. O plano em que lamenta a angústia do irmão mostra-nos um
buraco ao fundo como em sua alma arrependida.
Salim, antes de sair para
concretizar as ordens do chefe, faz uma oração. A consciência, mesmo que
distorcida, dos seus atos cria uma relação suave com Deus. E o plano plongée
(tomada de cima) nos prova isso. O rapaz é ínfimo dentro da estrutura
enclausurante do prédio, signo de sua vida equivocada e materialista,
entretanto, por menor que seja, ainda há um canal com o Supremo.
Jamal, ao seguir seu irmão, finalmente
encontra Latika (repetição do plano no qual, mais nova, a encontra dançando
para o cliente). A menina, escrava da vida que leva, parece não acreditar mais
em escapatória, desencorajando Jamal de suas idéias fantasiosas.
Perceba como os tijolos de vidro
distorcem Latika assim como a submissão a Javed e a sua riqueza infindável. E
como vemos os tijolos quando ela se afasta voltando à sua triste realidade, nos
fazendo lembrar da condição humilhante em que vive.
Jamal, de volta ao programa,
acerta a penúltima pergunta mesmo com a tentativa inconsequente de Prum de
sabotá-lo. Por um momento eles conectam-se numa batalha desconhecida pela
platéia. Covardemente o apresentador o denuncia à polícia sob acusação de
fraude. Entretanto, a essa altura, o inspetor já está vencido pela sinceridade
inquestionável do rapaz.
Já Salim resolve se sacrificar em
prol da união do casal, ajudando Latika a fugir e matando Javed. Seu suicídio é
tratado como o resultado da tomada de consciência do rapaz. Não gratuitamente
ele agradece a grandiosidade de Deus. Perceba como o diretor ilustra essa
passagem de Salim dividindo o plano com um reflexo da banheira. O rapaz
"atravessa" o corte do quadro desaparecendo em meio a escuridão.
E Jamal não só acerta a última
pergunta como terá ao lado o amor da sua vida. E nada melhor para celebrar esta
vida fantástica e fantasiosa que um musical no estilo dos desenhos da Disney.
O musical reafirma a importância
da trilha sonora. A música indiana, poderosa e marcante, se sobressai por vezes
da imagem, comportando naturalmente as sequências videoclípticas do filme. Tendo
papel determinante ao intensificar ou suavizar momentos dramáticos.